Todo caminho da gente é resvaloso. (…) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza…” O grande sertão: Veredas. João Guimarães Rosa.

A pesquisa plástica de Renato Gosling especula um dos maiores mistérios desde o século XIX: Qual é, afinal, a identidade brasileira? É sabido que este povo feliz e saltimbanco não se fez apenas por seus próprios passos. Esta pátria nasceu do contato e toque entre povos europeus de várias origens1, africanos2 e ameríndios3. Uma espécie de comunhão forçada entre povos com hábitos tão distintos entre si, parece ter gerado um hábito de se aceitar e subverter, em iguais medidas, a ordem social de cada tempo.

A jovem nação brasileira parece decantar seus hábitos e desejos em ícones. Os confrontos e contradições sociais destes povos, capazes de buscar suas origens fora das terras de sua morada, sintetizam-se em imagens [ícones, se preferirmos] com vocação para polarizar a atenção de toda gente, independente de origem ou classe social. As mentes e corações brasiereiras, por assim dizer, estão acostumadas a sentir-se a vontade [em casa] seja na miséria, seja no luxo, desde que exista alegria ao se enfrentarem as mazelas que inescapavelmente atravessarão a vida de todos.

O paulistano Renato Gosling mira a somatória de pacificações e contradições que dão forma à identidade nacional e elege objetos típicos da cultura

vernácula (sejam chinelas (sic) havaianas, a famigerada paçoca Amor ou o samba de bolso Fiatlux) como protagonista em cenas quase surreais. Através de suas colagens virtuais, impressas como fotografias fineart, o artista enuncia simbolicamente a versátil capacidade de fazer-se enquanto brasa, que todo brasileiro carrega consigo. Simbolos de alcance tão amplo que atravessa todas as classes sociais.

Foto impressões como Ipanema (2020) e Copacabana (2020) destacam dois dos mais famosos calçadões brasileiros sobrepostos à uma sandália que é mundialmente reconhecida como um objeto de design destas paragens, onde os Homens se transforma em labaredas. Não apenas a alegria com a qual cada sujeito enfrenta suas mazelas, faz deste povo quem ele é. A conturbada história entre a independência e o presente, manifesta a capacidade de “dar a volta por cima”4, o jogo de cintura e a mansidão desta gente sã, os brasileiros.

A aceitação de estruturas sociais desiguais, a constante aceitação das atitudes em zonas cinzas – que não são nem exatamente boas ou más – acaba por transparecer a constante aceitação desde governos às fundações do contato social – esse de pele revelado pelas ruas a qualquer momento, com abraços, beijos e bênçãos. Talvez outros povos, também consigam se pacificar em sociedades alegres como a brasileira. Porém, apenas o brasileiro é capaz de ressignificar a alegria e a tristeza; e ressignificá-los; e ressignificá- los, como que buscandoum pequeno instertício compartilhado por todos na unidade da identidade nacional.

Quando Renato Gosling apresenta ao público as sandálias tipo Havaianas suspensa no ar com uma praia a desaparecer no horizonte onde o céu toca a Terra, com a impressão de Ipanema (2020), a sugestão de que o gentio, por viver em terras de brasas5, acabaram for fulgurar-se nas intangíveis labaredas do fogo ardente que lambe com carinho estas terras. Ao fim, ao cabo: o artista especula como o povo desta terra é cordial enquanto condição natural.

Ao retratar mercadorias que alcançam [todo] o povo a despeito de sua condição miserável ou ilustre, Renato relembra que quem habita a brasa é o fogo e a chama ardente é o único elemento capaz de ascender até mesmo as estrelas.

Crítico de arte e curador independente, Paulo Gallina é bacharel em História pela
Universidade de São Paulo (USP). Participou do Grupo de Estudos de Crítica e Curadoria da ECA-USP orientado pelo professor doutor Domingos Tadeu Chiarelli (2009-2012) durante sua formação.

Colaborou com os espaços independentes:
Ateliê OÇO (2010); o Ateliê 397 (2013) e espaço T. A. Z.(2018); como crítico residente. Atuou como crítico e curador no Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake (2010-2013). Ministrou cursos de sobre história da arte em cursos de extensão no Instituto Tomie Ohtake (2013); no Instituto Itaú Cultural (2014); e no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP. Nos últimos anos curou as exposições: Nino Cais: Das Bandeiras e dos Viajantes (SESC, São Carlos, Ribeirão Preto e Sã o Paulo, 2013); Primeira Leitura (Zípper Galeria, São Paulo, 2014); O saber da linha (LAB570, São Paulo, 2014/PINTA LONDON, Londres, 2015); Alguma coisa descartável (Museu de arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, 2014); Estruturas precárias (Galeria Paralelo, São Paulo, 2015); Apagamentos (Caixa Cultural, São Paulo, 2016); A vida das pessoas extraordinárias (Museu Nacional de Artes Visuais, Montevidéu, 2017); Máquina sem palavras (Museu da Fotografia da Cidade de Curitiba, Curitiba, 2017); Tudo que está coberto (Galeria Aura, São Paulo, 2017); Terra em Chamas (Caixa Cultural, Rio de Janeiro, 2018); entre outras. Publicou livros e catálogos, destacando as leituras críticas do e-book Acervo: outras abordagens Volume II, publicado pelo Museu de arte contemporânea da USP, e o ensaio Sobre calar elaborado para o catálogo da exposição Os primeiros 10 anos, realizada no Instituto Tomie Ohtake, da qual também foi um dos curadores.

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